segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Que fazer com esta dor?

A dor de parto é diferente de todas as outras. Para lidar melhor com ela, há que conhecê-la bem. Em 11 perguntas desvendamos os segredos desta sensação tão temível quanto fascinante.

1. PARA QUE SERVE A DOR DE PARTO?
Com a hospitalização do parto, entendeu-se que a dor de parto não teria nenhuma utilidade e que deveria ser eliminada. A par de algumas drogas para diminuir a dor, surgiram os cursos de preparação para o parto com a intenção de ensinar a mulher a sentir menos desconforto. O método Lamaze, criado pelo obstetra francês Fernand Lamaze, em 1940, ficou conhecido mundialmente, também com os nomes de método psicoprofiláctico ou método para um parto sem dor. Quando apareceu, sugeria acabar com as dores de parto através de exercícios de respiração e relaxamento, geralmente, sob a voz de comando do companheiro ou da parteira. Mas, recentemente, a organização Lamaze criou novas orientações para o parto normal, nas quais destaca o «importante papel da dor para o desenvolvimento do parto normal». No site, a organização explica que o conhecimento sobre o trabalho de parto evoluiu e, como tal, também as formas de atendimento ao parto devem ser alteradas. O objectivo já não é acabar com a dor, mas sim saber tirar partido dela, seguindo as suas indicações. E explica-se assim a função da dor no parto: «A dor de parto, tal como a maioria das dores, é protectora. Responder à dor com movimento – incluindo andar, balançar ou mudar de posição – ajuda não só o bebé a rodar e a descer pela pélvis, como também protege o corpo da mãe. À medida que o colo do útero estica e dilata, os níveis de ocitocina aumentam e as contracções tornam-se mais fortes e eficazes. Com a dor, são também libertadas endorfinas que ajudam a mulher a lidar com as contracções mais fortes e com a descida do bebé. Responder activamente às dores ajuda a diminuir a própria dor e contribui para o progresso do trabalho de parto». Por tudo isto, muitas vezes, diz-se que a dor no parto é uma aliada.


2. A QUE SE ASSEMELHA A DOR DE PARTO?
Muitas comparações já foram feitas: dores menstruais, mas mais fortes, cólicas renais, ondas que percorrem o corpo todo, pior que uma dor de dentes, pior que um osso partido, as vísceras a serem arrancadas do corpo. Muitas mulheres dizem que é uma dor insuportável, a pior que já sentiram. Outras dizem que não se importaram nada de sentirem as dores e que tiveram uma experiência limite fantástica. Há ainda relatos de mulheres que dizem ter sentido prazer durante as contracções. As comparações não são possíveis. Cada mulher e cada parto são diferentes. É normal que, no começo, a sensação se assemelhe a uma cólica. A partir daí, depende muito da forma como a mulher for atendida no hospital, do ambiente gerado em torno dela, da confiança que tem no seu corpo e no processo, da sensibilidade à dor. Ainda no site da organização Lamaze, a dor de parto é comparada ao sofrimento que muitos atletas fazem para subir uma montanha ou chegar à meta no final de uma corrida. «No final, todos experimentam uma sensação de euforia e um aumento da auto-estima.»


3. QUAL É A PARTE DO TRABALHO DE PARTO QUE DÓI MAIS?
A dor de parto vai ficando mais forte conforme a dilatação vai progredindo, pois as contracções vão ficando mais intensas. O papel que sai do CTG (aparelho que mede o batimento cardíaco fetal e as contracções uterinas) vai dando informação sobre a intensidade das contracções, numa escala de zero a cem e, assim, é possível ver o que ainda está para vir. A parte mais dolorosa será então a saída da cabeça do bebé – a fase expulsiva – que significa que a dilatação já está nos dez centímetros e que a intensidade das contracções deve estar a bater nos cem. Nesta altura, além das contracções, sente-se o períneo o esticar ao máximo, o que provoca uma sensação de ardor. É o anel de fogo. É uma fase exaustiva e exigente, mas passa depressa. Logo a seguir sai o corpo, que já não dói praticamente nada. E assim que o bebé está cá fora acabam-se imediatamente as dores.


4. É VERDADE QUE AS DORES DE PARTO SE ESQUECEM RAPIDAMENTE?
«Quando tive o meu filho nos braços esqueci logo as dores.» A frase é comum à maioria das mulheres que acabaram de ter um bebé e um estudo publicado no BJOG (An International Journal of Obstetrics and Gynaecology), em 2008, comprova que, de facto, as dores de parto esquecem-se depressa. Mais de duas mil mulheres foram entrevistadas pelo Instituto Karolinska, na Suécia, após o nascimento dos seus bebés e cinco anos depois. Os investigadores verifi caram que, cinco anos mais tarde, para 50 por cento das mulheres a dor era relembrada como sendo de menor intensidade. Ao mesmo tempo, concluíram que quanto mais positiva tinha sido a experiência do parto, mais facilmente as mulheres esqueciam as dores.


5. EM QUE POSIÇÃO DEVO ESTAR PARA REDUZIR AS DORES?
Não são precisos estudos científicos para perceber que um parto será mais fácil se a mulher estiver numa posição vertical (em pé, de cócoras ou sentada). A força da gravidade ajuda o bebé a descer. Enquanto que se a mulher estiver deitada o esforço terá de ser maior. O movimento permite que o bebé tenha o máximo de espaço possível na pelve e reduz a dor, como já foi explicado na primeira pergunta. Nas recomendações da Organização Mundial de Saúde para o atendimento ao parto normal é referido que a «liberdade de posição e movimento durante o trabalho de parto» e o «estímulo a posições não supinas (deitadas) durante o trabalho de parto e parto» são condutas «claramente úteis e que deveriam ser encorajadas». No entanto, muitos hospitais continuam a manter as mulheres presas aos estribos para parir. Uma norma que apenas surgiu quando o parto passou a ser hospitalizado e a mulher passou a estar ligada ao soro e ao CTG, o que a obrigava a ficar imóvel. Hoje em dia, a
hidratação intravenosa (soro) começa a ser uma prática em desuso e já há CTG portáteis. Mas a mobilidade durante o parto e a escolha da posição na fase da expulsão ainda estão pouco interiorizadas nos hospitais portugueses.


6. A ÁGUA ALIVIA MESMO AS DORES DE PARTO?
«A utilização de água quente durante a dilatação induz a mulher ao relaxamento, reduz a ansiedade estimulando a produção de endorfinas, melhora a perfusão uterina e encurta o período de dilatação, e aumenta a sensação do controlo da dor e satisfação», pode ler-se no livro «Iniciativa Parto Normal», lançado em 2009, pela Associação Portuguesa dos Enfermeiros Obstetras em colaboração com a Federação de Associações de Parteiras de Espanha. Em 2008, uma revisão de onze estudos do Cochrane também chamava a atenção para os benefícios da utilização da água durante o parto: «A imersão em água durante a primeira parte do trabalho de parto [dilatação] reduz significativamente a
percepção da dor por parte da mulher e reduz o uso de analgesia epidural», lê-se nas conclusões.
Ainda assim, em Portugal, o parto na água é uma prática pouco comum. O Hospital de São Bernardo, em Setúbal, disponibiliza uma piscina insuflável às grávidas que assim o desejarem. O Hospital de São João, no Porto, tem um quarto especial com uma banheira de hidromassagem. Mas ambas as instituições apenas permitem às grávidas estarem dentro de água durante a fase de dilatação. A fase expulsiva terá de ser ‘em terra’. Em relação aos privados, o Hospital Particular de Lisboa tem uma equipa que segue os partos na água, permitindo que todo o processo se desenrole em meio aquático. Existem ainda à venda banheiras insufláveis que podem ser utilizadas nos partos em casa.


7. QUE OUTROS MÉTODOS NÃO FARMACOLÓGICOS POSSO UTILIZAR PARA DIMINUIR A DOR DE PARTO?
São várias as opções para lidar melhor com a dor de parto sem intervenções médicas, embora nenhuma a apague por completo. O que se pretende com estas alternativas é ajudar a mulher a lidar com a dor e a responder da melhor forma às suas solicitações.

– A bola de parto costuma ser útil na fase da dilatação, servindo de apoio (se a mulher estiver de joelhos) ou promovendo o balanço (se a mulher estiver sentada nela). Alguns (poucos) hospitais portugueses já disponibilizam estas bolas às mulheres na primeira fase do trabalho de parto.

– Ter um acompanhante que possa transmitir apoio e emocional e segurança ajuda sempre em situações difíceis e desconhecidas, como é o caso do parto. Vários estudos têm demonstrado que as mulheres que tiveram um acompanhante permanentemente no parto sentiram menos necessidade de analgesia e relataram uma experiência de parto mais satisfatória.

– A massagem, tal como noutras dores, pode ser útil. «Melhora o relaxamento e reduz a dor porque melhora o fluxo sanguíneo e a oxigenação dos tecidos», explica-se no livro «Iniciativa Parto Normal».

– O ambiente que se vive na sala de parto influencia directamente a percepção que a mulher terá da dor. O parto é um momento em que a mulher se expõe como nunca. Se tiver um ambiente acolhedor e intimista sentir-se-á mais descontraída e terá mais facilidade em relaxar. A tensão, o medo e a ansiedade aumentam, como se sabe, a sensação de dor e de desconforto. Em muitos países, principalmente os
nórdicos e no Reino Unido, existem centros de nascimento, geridos por parteiras, que proporcionam um ambiente mais acolhedor e um atendimento com menos intervenção médica para que a mulher consiga relaxar mais facilmente. Geralmente, também é permitido à mulher escolher uma música ambiente, baixar a intensidade das luzes ou levar alguns objectos que tornem o ambiente mais familiar.


8. AS TERAPIAS ALTERNATIVAS PODEM ALIVIAR AS DORES DE PARTO?
A acupunctura é a terapia alternativa mais referenciada no alívio da dor de parto, mas não existe um consenso entre a comunidade científica sobre as suas vantagens. Numa revisão de estudos de Abril de 2010, publicada no conceituado International Journal of Obstetrics and Gynaecology (BJOG), o autor escreve que «não houve evidência convincente de que mulheres que recebem acupunctura experimentem menos dor no parto do que aquelas nos grupos controlo». As conclusões foram rebatidas por alguns especialistas que alegam que estudos anteriores tinham confirmando o contrário e que a dor é subjectiva, portanto, difícil de comparar. Por outro lado, o mesmo estudo comprova que a acupunctura durante o parto não tem qualquer efeito negativo nem para a mãe, nem para o bebé, o que leva os mesmos especialistas a incentivar as mulheres que assim o desejarem a experimentar esta forma de alívio da dor.


9. QUANTO TEMPO PODE SER CONSIDERADO NORMAL ESTAR EM TRABALHO DE PARTO COM DORES?
É muito relativo, mas o normal é que, num primeiro parto, o útero dilate, em média, um centímetro por hora – o que dá dez horas no período de dilatação. As contracções mais fortes costumam aparecer por voltas dos três centímetros de dilatação, mas às vezes começam logo ao um centímetro. O período expulsivo, que começa quando o útero atinge os dez centímetros de dilatação, pode durar entre 45 e 60 minutos num primeiro parto e entre 15 a 20 nos restantes. Somando tudo, os dados indicam que o nascimento do primeiro filho pode durar 12 horas. Mas uns demoram mais outros demoram menos.


10. SE OPTAR PELA EPIDURAL NÃO PRECISO DE ME PREOCUPAR COM AS DORES?
A analgesia epidural é o método mais eficaz na dor de parto. Isso é unânime por parte da comunidade científica. «Com esta técnica, 95 a 98 por cento das parturientes sentem uma supressão total ou parcialmente total da dor», escreveu o obstetra Diogo Ayres de Campos na edição de Outubro da PAIS&Filhos. O médico explica ainda o seu modo de funcionamento: «Trata-se de uma técnica que elimina a sensação dolorosa das contracções uterinas, através da injecção de um anestésico no espaço epidural da coluna vertebral lombar, impedindo assim a transmissão ao cérebro dos impulsos nervosos provenientes do útero e áreas adjacentes». Os efeitos notam-se dez a 15 minutos depois, sendo necessárias administrações subsequentes quando a dor recomeça.


11. PORQUE É QUE HÁ MULHERES QUE NÃO QUEREM EPIDURAL?
«Embora a analgesia epidural seja o método mais eficaz de controle da dor e seja o método mais popular em muitas países, muitas mulheres preferem evitar métodos farmacológicos se possível. A vontade de manter o controle pessoal durante o trabalho de parto e o parto, o desejo de participar completamente na experiência e preocupações com os efeitos indesejados dos medicamentos durante o trabalho de parto estão entre os factores que influenciam as suas atitudes.» Esta é a justificação apresentada no livro de referência na área dos cuidados obstétricos Guia para a Atenção Efectiva na Gravidez e no Parto. No capítulo sobre «Controle da dor no trabalho de parto», conclui-se que «a satisfação no parto não depende da ausência de dor. Muitas mulheres estão dispostas a sentir alguma dor no parto, mas não querem que a dor seja excessiva».


Fonte: Pais e Filhos - escrito por Patrícia Lamúrias

18 meses para recuperar do parto

18 meses é o tempo que uma mulher demora a recuperar de todas as vicissitudes de ter sido mãe. Esse é, pelo menos, o resultado de um inquérito on-line de uma marca de roupa britânica, ao qual responderam mais de três mil mulheres.

Noites sem dormir, baixa de confiança, receios de perda de independência, preocupações com o regresso à imagem pré-bebé e de que forma serão olhadas pelas outras pessoas são algumas das inquietações das mulheres após o nascimento de um filho, segundo as respostas obtidas pelo inquérito.

Seis em dez mulheres disseram que os níveis de confiança baixaram quando perceberam que as roupas antigas não lhe serviam. Um quarto das mulheres afirmou sentir-se em competição com outras mães – incluindo celebridades – para perder peso.

Seis em dez mães queixaram-se da falta de rotina nos primeiros meses. 68 por cento sentiram-se «uma máquina de alimentação», enquanto 63 por cento admitiram deixar de cuidar do seu próprio aspecto.

Um terço das mulheres teve receio de voltar ao trabalho, enquanto 66 por cento recearam não ter a confiança necessária para desempenhar a sua função. Nove em dez mulheres disseram que o trabalho pareceu deixar de ter importância depois do nascimento de um filho e 79 por cento não queriam deixar o bebé para ir trabalhar.

Mas nem tudo é mau para sempre. Segundo o estudo, em média, 18 meses depois do parto, uma mãe volta a «sentir-se mulher outra vez».

Fonte:Pais e Filhos

A descoberta do mundo

Os estudos científicos revelam que um recém-nascido é capaz de ver, ouvir e reconhecer os cheiros e os gostos, para além de ter uma extrema sensibilidade ao tacto.
Durante muitos anos pensou-se que os recém-nascidos eram seres «amorfos, abúlicos e inertes», incapazes de revelarem um arzinho da sua graça e totalmente dependentes do colo e do peito maternos. Felizmente, a ciência e os cientistas, com destaque para os pediatras do desenvolvimento e para os psicólogos, encarregaram-se de demonstrar que as coisas não são bem assim e os estudos científicos revelam que um recém-nascido é capaz de ver, de ouvir, de perceber e reconhecer os cheiros e os gostos, para além de ter uma extrema sensibilidade ao tacto. Mais: estas competências começam muito cedo, ainda na vida intra-uterina.

ASSIM QUE NASCE, O BEBÉ É CAPAZ DE VER...

Custa a acreditar como até há bem pouco tempo muitas pessoas pensavam que os bebés só viam depois de passados alguns meses. Acho que estas pessoas andavam muito distraídas, e nem sequer olhavam bem para os seus filhos.
Sabe-se hoje, sem margem para dúvidas, que os bebés são capazes de seguir com os olhos objectos de cor viva, desde os primeiros dias, mesmo que possa haver uma certa dessincronização dos movimentos oculares. Inclusivamente, o bebé é capaz de movimentar a cabeça para melhor seguir o objecto, o que exige a atenção completa e a existência de mecanismos de controlo muito complexos, só próprios das «grandes pessoas» que são os recém-nascidos.
Demonstrou-se, de igual modo, que os bebés fixavam mais longamente um alvo, desde os primeiros dias de vida, desde que fosse desenhado o esboço de um rosto humano ou círculos concêntricos de uma cor única – prova evidente de que conseguem distinguir uma superfície estruturada de uma não estruturada, e de que reconhecem os seus iguais e os seus pais. Foi, inclusivamente, sugerido que os bebés, a avaliar pelo tempo em que se mantêm a fixar a imagem, terão um certo prazer neste exercício. Em suma, vêem bem e gostam de ver.
Por vezes, alguns pais dizem que o bebé se desinteressa do que vê ao longe, mas este desinteresse tem a ver com o facto de o bebé não ter, quando nasce, memórias com as quais possa aferir e comparar o que está a ver. Assim sendo, o significado da maioria das coisas é, ainda, incerto e desconhecido, sobretudo os objectos do ambiente artificial. Os elementos do ambiente natural, pelo contrário, como existem há muitos milhares de anos e estão na nossa memória genética e antropológica, são reconhecidos: basta, aliás, ver o prazer com que um bebé olha para os movimentos das árvores ou para o céu. Acresce que a discriminação dos pormenores de um objecto ou de uma cena, sobretudo quando desconhecida, exige uma enorme atenção e uma observação demorada e analítica, o que é ainda difícil para um bebé pequeno, que se cansa facilmente com os estímulos.
Sabe-se, de igual modo, que um bebé consegue ver nítido a uma distância de um palmo (cerca de 20 cm) que é, afinal, nem mais nem menos do que a distância natural entre a face da mãe e a sua, quando está ao colo ou a mamar. A natureza realmente não se engana!
A evolução da visão vai-se fazendo gradualmente e, quer o tempo que o bebé aguenta a olhar para as coisas, quer a atenção que lhes dedica e o significado que o seu cérebro já lhes consegue atribuir, fazem com que, a partir de cerca dos quatro meses, a capacidade de ver com nitidez seja já praticamente total. Desta forma, é indiscutivelmente importante investir na interacção precoce entre pais e filhos e no jogo sensorial entre ambos (sem cair, obviamente, na estimulação exagerada ou na exigência de performances).
Durante o primeiro mês de vida, a criança sabe distinguir o rosto da mãe e do pai do das outras pessoas e reage de forma diferente às diversas expressões que eles fazem. Se sorrirem, a criança fica calma ou até sorri. Se ficarem impassíveis ou fizerem uma cara zangada, a criança fica, primeiro, parada à espera; depois, faz uma expressão triste, finalmente chora. A capacidade de imitação é também muito grande: se os pais deitarem a língua de fora, demoradamente, o recém-nascido vai tentar fazê-lo também, abrindo a boca, fazendo movimentos com a língua e conseguindo, muitas vezes, deitá-la de fora também. Fá-lo-á mais rápida e eficazmente se for sendo aplaudido e elogiado pelos seus progressos, como nos acontece ao longo da nossa vida.


... E TEM UM BOM OLFACTO


Bom, não. Excelente. Talvez o sentido mais apurado de todos, nesta idade.
Aliás, se assim não fosse como é que se orientava para o mamilo da mãe, à procura de leite – e sabe distinguir o cheiro do leite da sua mãe do de outras mães. A função olfactiva está relacionada com a memória, e só é pena que a sociedade seja predominantemente audiovisual e que não valorize tanto este sentido.

... E JÁ GOSTA DE BONS SABORES

Sabe-se que o bebé, ainda in utero, aprecia o gosto do líquido amniótico – agita-se e engole mais quando a mãe, por exemplo, come um doce. Os gostos alimentares têm, portanto, uma origem muito precoce na vida da criança.
Da mesma forma, há bebés que podem rejeitar temporariamente o leite materno se a mãe comeu alimentos muito temperados ou com sabores mais fortes, como cebola, alho ou especiarias.

... E OUVE MUITO BEM

Se ouve! O bebé é capaz de, a partir da 26.ª semana de gestação, reconhecer e diferenciar sons de diversas frequências e manifestar o seu contentamento ou o seu desagrado relativamente a um som, o que é avaliável pela observação das alterações do ritmo cardíaco e dos movimentos fetais em resposta a estímulos auditivos.
Sabe-se que um bebé que tenha ouvido certas melodias durante a gestação pode, depois de nascer, reconhecê-las e acalmar-se ao ouvi-las, demonstrando afinal a «nostalgia» do conforto uterino. Do mesmo modo, um bebé acalma-se, geralmente, ao ouvir sons ritmados… por evocarem os batimentos cardíacos da mãe, aos quais se habituou durante nove meses consecutivos e que lhe relembram o ambiente agradável e seguro em que viveu durante esse tempo. E reconhece facilmente a voz do pai e dos irmãos, se teve a oportunidade de as ouvir durante a gravidez – é importante, por isso, que estes falem com o feto, quando ele ainda está na barriga da mãe.
Logo depois de nascer pode avaliar se a audição do bebé, provando que volta nitidamente os olhos ou a cabeça na direcção do som. Por outro lado, ruídos inesperados (como o estrondo de uma porta a fechar-se) provocam uma reacção de agitação ou sustos (reflexos de Moro) enquanto barulhos rotineiros e mantidos (como o som de um aspirador) não lhes provocam qualquer reacção.
A criança é especialmente sensível à voz humana. Falar com o bebé é um momento essencial na relação parental e fraternal, especialmente quando eles estão acordados e não têm fome ou não se sentem desconfortáveis.
Com calma, sem stresse (caso contrário, ele detectará logo os trémulos da voz e perceberá que os pais estão inquietos ou angustiados, interpretando depois esses sinais como ele próprio podendo estar em perigo), com um tom de voz lúdico e com graça, brincando com o bebé (não é por acaso que os pais inventam mil e um nomes através dos quais apelidam o seu filho), desdramatizando a tendência natural para o seu bebé e dramatizar as coisas, no fundo correspondendo à desconfiança natural que o seu instinto
de sobrevivência exige.

... E O TOQUE DO AFECTO

Quantas vezes nos esquecemos deste sentido – o do tacto.
Sabe-se que o feto, ainda na vida intra-uterina, é sensível aos estímulos tácteis que lhe chegam a partir dos movimentos da mãe. A massagem suave do ventre materno provoca movimentos do feto. Por outro lado, movimentos agressivos da parede abdominal da mãe – como por exemplo espetar um dedo – levam o feto a adoptar atitudes de defesa, como o sobressalto e a recua.
Depois de nascer, muito gostam os bebés de serem acariciados ou simplesmente de se sentirem em contacto com o corpo e a pele dos pais. A pele é o órgão maior, e dos mais enervados. O toque e o contacto, quando meigos, afectivos e tranquilos, dão calma e prazer ao bebé, fazendo-o sentir-se amado e adorado. Pelo contrário, estímulos desagradáveis (calor, frio, toques irritados, rápidos, bruscos) fazem-no infeliz e inseguro. A sociedade ocidental, por motivos vários que não importa discutir agora, tem remetido o estímulo táctil e o toque para as «coisas a abater». As pessoas distanciam-se, cumprimentam-se friamente e evitam tocar-se, não vão ser acusadas de assédio ou de intenções menos claras. É necessário o toque e a estimulação do tacto. Como fazem as crianças entre si, ou os adolescentes, ou até os idosos.
É pena que muitos adultos não assumam essa relação com o bebé de uma forma inteiramente descomplexada e livre. O estímulo táctil é fundamental durante toda a vida. Está intimamente relacionado com o afecto e a segurança.
É necessário porque a interacção entre as pessoas não pode ser apenas longínqua e quase virtual. Em pleno século XXI, é altura de deixarmos de ter medo de abraçarmos os nossos filhos e de lhes fazermos festas e mimos sem culpas ou problemas de consciência.

TEMOS DE CONTEMPLÁ-LOS

Longe vão, felizmente, os dias em que, para os pais, familiares profissionais, os bebés eram seres incapazes de uma interacção com o mundo que os rodeava. A investigação pediátrica, entre outras, provou, sem margem para dúvidas, o que era evidente e esperado tendo em conta o que se passa com todos os outros animais: o recém-nascido tem as suas capacidades sensoriais bem desenvolvidas e necessita de estimulação para a sua vida de relação. É um ser que comunica com grande intensidade – mesmo que não da forma tradicional audiovisual, e são enormes as vantagens de entender e estimular essa comunicação.
Antes e depois de nascer, o bebé humano é um excelente comunicador, através do olhar, sorriso, do toque, dos sons, constantes desafios, numa sedução que faz aos seus parceiros e à sua parceira muito especial, a mãe. Não é por acaso que os bebés sentem a tristeza, a alegria, a tranquilidade e a ansiedade dos progenitores, mesmo que estes se esforcem por disfarçar os sentimentos. Não é por acaso que transmitem sinais, através de mecanismos ainda incompletamente conhecidos, como os que, por exemplo, levam a mãe a produzir o leite com o conteúdo modificado conforme as exigências do bebé, ou que induzem no pai alterações hormonais que se reflectem nos seus ritmos biológicos, como o do sono.
Temos uma enorme necessidade de, em todas as idades, estabelecer contactos. Seja de uma forma positiva, através de comportamentos sedutores, seja negativa, através de birras e manifestações temperamentais.
Os bebés comunicam por linguagem corporal, gestual, pelo simbolismo das suas caretas, em que expressam agrado ou desagrado, mesmo antes de falarem.
É pois necessário contemplação – uma mistura, afinal, de tempo, disponibilidade, tranquilidade e pôr de parte outras prioridades e problemas.
Quando se contempla, sabe-se quando se começa mas não se sabe quando se termina – a contemplação exige um fluxo e refluxo de sensações, de momentos de actividade e outros de reflexão, de maturação.
Quando se contempla não se pode estar a ser interrompido ou incomodado, seja por visitas, seja por telemóveis a tocar freneticamente.
Mas só assim será possível os pais entenderem o seu bebé e vice-versa, numa intensa comunicação que se faz com os cinco sentidos, mas também – e principalmente –, com a alma, com os sentimentos e afectos.
Por outro lado, é extremamente recompensador e divertido descobrir as capacidades dos bebés. Os pais não devem ter medo de brincar, falar com eles, estimulá-los, demonstrar abertamente o seu amor. É fácil perceber os melhores momentos para desenvolver esta interacção: quando a criança está bem acordada, sem fome, sem a fralda molhada, sem cólicas, sem frio, sem sono, ou seja, quando nada ameaça a sua sobrevivência e ele pode estar tranquilo e disponível.
É fácil perceber, também, quando o bebé está a ficar cansado – ele defende-se, deixando-se adormecer ou ficando irritado, com movimentos corporais cada vez mais agitados e aleatórios. É também simples descobrir como o bebé se consola, quando irritado: falando com ele, pondo-lhe mão na barriga, segurando-lhe as mãos e as pernas e impedindo os movimentos de agitação que o desorganizam, pegando-lhe ao colo, embalando-o. Dando-lhe estímulos tranquilos e ritmados, que o farão regressar à barriga da mãe e aos ritmos lentos da Humanidade.
A descoberta do bebé é um desafio estimulante e agradável para cada casal, com a certeza, porém, de que o recém-nascido humano sabe fazer muitas mais coisas do que simplesmente comer e dormir. É só uma questão de lhe dar as oportunidades para o demonstrar. E apreciar em cada dia do bebé... o bebé.

MÉDIA NÃO QUER DIZER NORMALIDADE

Média não quer dizer normalidade. Os parâmetros que vêm nos livros ou que se utilizam para calcular grosseiramente o grau de desenvolvimento das crianças são médias de um conjunto de crianças e não uma obrigação para cada criança. Não podem ser interpretados de modo individual. É importante que os pais registem as idades em que os filhos vão fazendo as diversas «gracinhas» e vão alcançando as várias etapas do desenvolvimento. O desenvolvimento processa-se por etapas. Cada etapa pode demorar mais ou menos tempo, consoante a criança, e portanto nem todas as crianças da mesma idade estão na mesma fase de desenvolvimento.

Outro aspecto: há uma certa ordem nas etapas do desenvolvimento: o que alguns chamam sentido «cefalo-caudal» que, traduzido por miúdos, significa por exemplo que a criança primeiro descobre a boca, depois as mãos, depois os pés ou que primeiro endireita os músculos do pescoço (e segura a cabeça, por volta dos três meses), depois os do dorso (e senta-se por volta dos sete), depois os das pernas (e anda por volta do ano). É inútil tentar que a criança salte etapas.
Há que ter uma perspectiva global do desenvolvimento da criança e não fazer, exclusivamente, um inventário dos seus erros e defeitos, como se estivéssemos a preencher uma reclamação para a fábrica, ainda dentro do prazo de garantia.
Finalmente, nem sempre as circunstâncias proporcionam que a criança mostre o seu melhor, ou seja, pode estar inibida pela presença de estranhos, cansada, com calor, com fome, com a fralda molhada, com sono; pode pura e simplesmente não lhe apetecer fazer «tetés» ou «tem-tens». Estimular o desenvolvimento é bom. Facilitar todas as oportunidades às crianças para que se desenvolvam, é óptimo. Exigir que sejam como nós queremos ou que façam coisas para as quais não estão biológica e psicologicamente preparadas é pura e simplesmente um erro. A detecção precoce das perturbações do desenvolvimento é essencial para que se consiga tirar o maior partido do potencial que todas as crianças têm, nomeadamente as que, à partida, parecem ter mais problemas e menos perspectivas de um desenvolvimento inteiramente normal. No entanto, as suspeitas têm que corresponder a verdadeiros desvios dos amplos limites da normalidade. E rotular uma criança de «atrasada», sejam quais for as circunstâncias, mesmo quando há algum problema, é fazer-lhe mal, e se esse rótulo é posto só porque o irmão mais velho ou a prima «não-sei-quantas» eram diferentes‚ só vai contribuir para prejudicar o seu desenvolvimento. E posto isto, toca a olhar bem «esse» bebé!

DESCOBRIR CADA BEBÉ COMO SENDO ÚNICO E PRIMEIRO

Cada bebé tem a sua maneira de ser e o seu leque de respostas aos diversos estímulos do mundo que veio encontrar, após muitos meses de vida num ambiente agradavelmente quente, relativamente insonorizado e sem demasiada luz. Não se pode esperar que um irmão seja igual a outro irmão, muito menos que o vosso bebé responda da mesma forma que os filhos dos vizinhos, dos amigos ou dos colegas. As comparações entre crianças têm geralmente um triste fim.

ATÉ OS QUATRO MESES VÊ A PRETO E BRANCO

Um recém-nascido interessa-se, em primeiro lugar, pelos contornos e pelas fronteiras entre as tonalidades (embora ainda veja tudo a preto, branco e diversos tons de cinzento), e o seu gosto em olhar formas com vários ângulos atesta a vontade de apreender o máximo de informações. Gosta das tonalidades contrastadas, dos objectos de médio tamanho em que a luz se reflecte e, de preferência, de forma ovóide. Por outro lado, prefere a face humana à sua representação em desenhos.
Aos quatro meses o bebé vê a cores, e os pais, quando lembrados deste aspecto, reparam que, quase de um dia para o outro, o filho começa a interessar-se mais gulosamente pelo ambiente e a deliciar-se com ele.

Fonte: Pais e Filhos - Escrito por Mário Cordeiro, pediatra